Olá Gabriel, para nós do blog LogonTV é um privilégio entrevistar você. Antes de tudo, muito obrigado pela sua atenção. Você é sem dúvida alguma o autor de livros técnicos em informática mais lido do Brasil e da América Latina. Conte-nos um pouco sobre os caminhos que levaram você a se tornar um escritor especializado em informática.

O prazer é todo meu, o blog de vocês é “show de bola”, muito bacana mesmo.

Bem, a pergunta é curta mas a resposta nem tanto, já que se mistura com a história da minha própria vida. Eu sou um aficionado por eletrônica desde muito pequeno. Aos oito anos de idade comecei a colecionar revistas de eletrônica (Be-a-bá da Eletrônica, Aprenda e Divirta-se com a Eletrônica, Saber Eletrônica, etc ­– aprendi muito com Apollon Fanzeres, Marcos Bêda, Newton C. Braga, etc), antes disso eu já comprava e montava circuitinhos elétricos mais simples. No meu aniversário de 11 anos ganhei meu primeiro computador, um TK85 e, no meu aniversário de 12 anos, ganhei meu primeiro computador “de verdade”, um Apple II plus. Nesta mesma época um tio começou a me ensinar, por correspondência, conceitos básicos de eletricidade e eletrônica, além de ter me dado uma caixa enorme (do tamanho de uma mala de viagem grande) cheia de capacitores, resistores, transistores, circuitos integrados, fios, diversos outros componentes e muitas revistas.

Até que um ano depois o meu computador queimou e quis aprender como consertá-lo sozinho. Lembrando que naquela época consertar computador envolvia a troca de circuitos integrados e não somente a troca de placas como é hoje. Foi uma ralação para atingir o meu objetivo. Primeiro, não entendia muito de eletrônica digital. E, segundo, conseguir qualquer documentação técnica decente era um suplício (estamos falando de 1987-1988). O lado bom é que passei a conhecer todas as lojas de eletrônica e livrarias técnicas do Rio de Janeiro.

Em 1988 eu já conseguia consertar os defeitos mais comuns do Apple II e comecei a trabalhar com isso por conta própria. Neste mesmo ano um amigo meu me apresentou a uma escola técnica em eletrônica, Instituto de Tecnologia ORT, onde estudei de 1989 a 1991, e aprendi todo o embasamento que carrego comigo até hoje. Lá tive acesso a profissionais, livros, ferramentas (tais como osciloscópios) e, principalmente, professores, coisa que não tinha acesso antes. Nesta época, pensando nos técnicos que não tinham acesso aos livros a que eu tive acesso (não só pela dificuldade em encontrá-los, mas porque eram em inglês), comecei a rascunhar um livro do tipo “Defeitos mais comuns do Apple II e como consertá-los”.

Só que com a abertura do mercado 1992 fui obrigado a cair na real. O Apple II já estava morto no exterior e no Brasil só continuávamos usando ele por causa da reserva de mercado. Neste mesmo ano corri atrás para fazer estágio em empresas de manutenção de PCs para aprender mais sobre a arquitetura do PC e comecei a ler muito sobre o hardware do PC (incluindo uma apostila que era anunciada no jornal Balcão pelo então desconhecido Laércio Vasconcelos, que guardo até hoje com muito carinho), lembrando que nesta época o parque nacional ainda estava cheio de PC XT cuja manutenção envolvia ainda a troca de circuitos integrados.

Comecei a trabalhar por conta própria consertando PCs até que em 1993 o mesmo colégio onde tinha estudado me convidou para trabalhar lá meio expediente para consertar os PCs de lá (quando comecei a trabalhar lá quase metade dos PCs estava parada, em uma semana coloquei “ordem na casa”). Os alunos do curso de eletrônica, vendo o meu trabalho, logo pediram que eu formasse uma turma para dar aulas sobre como consertar computadores. Nesta mesma época um amigo que tinha estudado comigo (Marcelo Abramovitz) pediu para fazer um estágio comigo. Achei loucura, pois ele tinha conhecimento similar ao meu.

O Marcelo foi quem mais me estimulou a montar um curso de manutenção de micros e a escrever um livro. Nós pesquisamos os cursos existentes e descobrimos que faltava um curso do tipo “completo”, os cursos na época era de apenas 2 dias e ensinavam apenas montagem de micros. A exceção era um curso de nove meses no CEFET que era pouco prático, os alunos tinham aulas de eletrônica, por exemplo. Bolamos então o tal “curso de hardware”, com 1 mês de duração com aulas de segunda a quinta à noite (depois expandimos para 2 meses).

Para o curso precisava de material didático, mas não havia no mercado nenhum livro que fosse ideal para o formato do meu curso. Escrevi uma apostila em 1995 que acabei decidindo transformá-la em um livro, que acabou sendo publicado em 1996 com o título “Hardware Curso Completo”.

Nesta mesma época surgiu a Internet e logo fiquei maravilhado, e montei um pequeno site do Geocities para divulgar o meu curso, o meu livro e para postar as minhas colunas do jornal O Dia – com o lançamento do meu primeiro livro fui convidado para ser colunista do caderno de informática que o jornal O Dia estava planejando. Este site acabou evoluindo para o que é hoje o Clube do Hardware.

Não posso deixar de citar também o meu amigo Alberto Cozer, que foi quem me estimulou a profissionalizar o meu site, passando ele de um site pessoal para um site com conteúdo técnico.

Até que em 2000 o site e as vendas dos meus livros estavam indo tão bem que eu resolvi pedir demissão do Instituto de Tecnologia ORT e parar de dar aulas para trabalhar com aquilo que estava me dando mais prazer: escrever.

A idéia de escrever sempre foi a de ajudar outras pessoas para que elas não precisassem passar o que eu já tinha passado para conseguir informações. E com os meus livros e com a Internet posso ajudar muito mais gente do que com os meus cursos.

Um dos seus livros, Hardware Curso Completo, recebeu 4 edições. Como todos sabem as tecnologias evoluem muito rapidamente e em pouco tempo aquilo que era atual já não é mais. A ultima edição do Hardware Curso Completo é de 2001. Como você decide sobre qual é hora de atualizar os seus livros?

Meus livros teriam de ser atualizados de dois em dois anos. No entanto, por uma briga judicial entre mim e a minha antiga editora não tenho lançado mais livros e este é o motivo de não estar lançando novos livros nem atualizações. Por recomendação dos meus advogados prefiro não entrar nos detalhes deste assunto até que a sentença final seja dada.

Você foi um dos pioneiros na utilização da web como forma de ampliar o contato com seus leitores. O site do Clube do Hardware está no ar desde 1996 e recebe diariamente a visita de milhares de internautas. Conte-nos um pouco sobre as estatísticas atuais relacionadas ao seu site.

O Clube do Hardware atualmente recebe a visita de 2,7 milhões de pessoas e imprime 14 milhões de páginas (pageviews) por mês. Só para você ter uma idéia, somos maiores do que muitos grandes e famosos sites internacionais, tais como o Xbitlabs (http://www.xbitlabs.com) e o The Inquirer (http://www.theinquirer.net). Pelo nosso tamanho, não somos somente o maior site sobre informática do Brasil e da América Latina, mas também um dos maiores do mundo.

Para você ter uma idéia melhor do tráfego que geramos, estamos usando atualmente cinco servidores dedicados, quatro deles com dois processadores Xeon de 3 GHz e 2 GB de RAM cada.

Quando você começou com o Clube do Hardware teve a oportunidade de estar em contato direto com milhares de leitores seus. Além disso, muitas pessoas conheceram primeiro o Clube do Hardware para depois comprarem seus livros. O site também se transformou em um bom canal de vendas?

Sim. Mas apesar de termos uma loja virtual e bons anunciantes e parceiros, acredito que ainda temos muito potencial inexplorado. Infelizmente os empresários brasileiros ainda são muito temerosos em terem um negócio 100% on-line e, principalmente, anunciarem em um site.

O fórum do Clube do Hardware é muito famoso. Como é feito o trabalho de gestão e organização do fórum?

Nós temos um administrador, o Daniel Barros que é, digamos assim, o “chefe” e 16 moderadores. Os moderadores trabalham de forma a colocar “ordem na casa”, movendo mensagens para os lugares corretos, acalmando os ânimos nas discussões mais acaloradas e ajudando os membros mais novos. Questões relacionadas à organização do fórum são decididas em conjunto através de votação.

Nós sabemos que é impossível gerir um site do porte do Clube do Hardware sozinho. Quem são os principais colaboradores seus nessa grandiosa tarefa?

Vamos separar o site em três: o site em si, o fórum e a loja virtual. Para o dia-a-dia do site: Cláudia Catherine (marketing), Rodrigo Chia (notícias e boletim), Cássio Lima (artigos e alguns testes), Daniel Barros (testes), Carlos Henrique (webmaster), Alberto Cozer (blog, quando dá na telha dele) e mais um amigo super tímido que é responsável pelos nossos servidores, fora escritores eventuais, como o André Gordirro e o Rafael Coelho, entre outros. Todos esses trabalham conosco de forma remunerada.

Para o fórum contamos com o Daniel Barros como administrador e uma equipe de moderadores que se dedica a “colocar ordem na casa” de forma não-remunerada apenas pelo prazer de participar de nossa comunidade. Nós temos atualmente 16 moderadores: Altieres Rohr (FallenHawk), André Ricardo Landim (cmax), Carlos Henrique Uchoa (Strider), Edvaldo Biancarelli (Red Beard), Elias Junior (Sombra_XXI), Fabrício (fcontato), Fernando Pinheiro, Fernando Victorino (red viper), Jose Carlos, Marcelo C Souza, Marcio Sell, Rafael Coelho, Rodrigo M Ramos, Rodrigo Teófilo (Rostev), Tarso Franchis (Phoenyx) e Vinícius Gimenes (Viny).

E quem toma conta da nossa loja virtual é o Adriano Góes.

Ou seja, temos atualmente 22 pessoas trabalhando no dia-a-dia do Clube do Hardware. Gostaria de ter mais, especialmente para nos ajudar com os testes, mas encontrar pessoas com o conhecimento técnico e que escrevam bem não é tão fácil quanto parece.

Em julho de 2001 você abriu um escritório em Taipei – Taiwan. Quais foram os motivos que levaram você a montar o seu primeiro escritório internacional e quais foram os frutos colhidos após essa iniciativa.

Foi graças a este escritório que passamos a ter visibilidade internacional. Passamos a conhecer todos os fabricantes e eles a nós, o que abriu as portas para o recebimento de mais material para testes e anunciantes, é claro. Ano passado nós decidimos que não precisávamos mais deste escritório e atualmente não temos mais representantes na Ásia.

Você auxiliou na formação de milhares de técnicos de hardware. Isso nos faz acreditar que o seu contato com as questões relacionadas ao mercado de trabalho é muito estreito. O que você pensa sobre o mercado brasileiro de manutenção de microcomputadores? Será que ainda é um bom negócio ser um técnico em hardware?

O Brasil ainda precisa melhorar muito na área de prestação de serviços, não só na manutenção de PCs. Além disso, a cada dia que passa mais gente compra computadores, o que aumenta a demanda por técnicos. Por isso acho este mercado um excelente negócio. Tem gente que acha que o mercado está saturado. Eu discordo. Acho que o mercado está saturado de profissionais ruins, para os bons profissionais o mercado é ótimo.

Só para explicar mais, o que diferencia o bom profissional do ruim são coisas como atendimento, orientação ao cliente, investimento na carreira através de cursos, leitura de livros e de sites com o Clube do Hardware, intercâmbio com outros profissionais, etc.

No Fórum do Clube do Hardware sempre existem testes e artigos relacionados às placas PCChips. Muitas pessoas têm verdadeira aversão a PCChips e tudo que ela fabrica. Por outro lado, é fato que uma imensa parcela da base nacional de microcomputadores é integrada com essas placas. Em sua opinião, como está hoje a qualidade dos produtos PCChips?

Melhorou muito. O que muita gente esquece é que PCChips é apenas a marca da ECS para produtos mais baratos. A qualidade da PCChips e da ECS é hoje absolutamente a mesma, em termos de processo de fabricação. É claro que os produtos são diferentes e não há como esperar de um placa de US$ 50 o mesmo desempenho de uma de US$ 150.

Eu particularmente acredito que as placas da PCChips são boas para o que elas se propõem, isto é, para PCs básicos de escritório. O problema é que tem muito usuário que compra essas placas para rodar games, e é óbvio que o desempenho não será o mesmo de uma placa topo de linha. O problema, ao meu ver, é quem está vendendo dar a orientação correta ao consumidor, isto é, o produto correto para a aplicação correta. Infelizmente, como eu disse, o Brasil ainda tem muita estrada pela frente, já que os vendedores em sua maioria são ainda menos qualificados que os técnicos.

Como o escritor de livros técnicos em informática mais lido do Brasil e da América Latina era óbvio que a sua grande visibilidade traria para você alguns críticos. Isso é um fato que pode ser observado em alguns fóruns pela web. Como você lida com as críticas e seus desdobramentos?

Rindo.

Veja, existem dois tipos de crítica, a construtiva e a destrutiva. A crítica construtiva nós levamos muito a sério. Por exemplo, se alguém acha alguma informação errada em algo que eu escrevi, basta me avisar que eu corrijo na hora. O problema está nos “pentelhos de plantão”. Em vez de nos avisarem do erro, vão em outro fórum da web e postam que eu não sei nada e que o Clube do Hardware está cheio de erros. Sinceramente, em que isso nos ajuda ou em que isso ajuda outros usuários?

Só para você ter uma idéia, no outro dia um camarada nos enviou um e-mail dizendo que um determinado artigo tinha um erro, mas não dizendo qual era o erro e onde estava. Perguntei em que parágrafo estava o erro e o que consistia o erro exatamente, e a resposta foi “tá tudo errado, é só ler”. Aí fica difícil, né?

Outros me acusam de “mercenário”, “vendido” e outras palavras de cunho similar, só porque temos vários anunciantes. Engraçado que quando rebatemos com a nossa resposta padrão “ok, a gente tira os anúncios e manda a fatura dos servidores para você pagar, basta nos enviar seu endereço” o pessoal some rapidinho.

Acho que com a Internet ficou fácil falar qualquer besteira sem pensar antes.

Para nos criticar aparece gente aos montes, mas para nos ajudar é difícil achar alguém.

Também há aquele velho pensamento “se é brasileiro, não presta”. Sou um dos poucos brasileiros na área reconhecido no exterior e o que o pessoal faz? Em vez de ter orgulho de termos finalmente um brasileiro que mostra aos gringos que aqui a gente não fala espanhol, não atravessa a rua de cipó nem mata cobra na rua, ficam criticando, como se ter sucesso fosse uma coisa ruim.

Olhando para o futuro, quais são as suas previsões para o mercado de informática no Brasil para os próximos 5 anos?

Não tenho bola de cristal, mas tenho uma opinião. Tudo vai depender do governo. Enquanto tivermos essa política de proteção de mercado onde custo de importação gira em torno de 100%, continuaremos a ser uma República de Bananas onde os fabricantes só se interessam em enviar produtos mais simples – aqueles que ninguém quer nos EUA, Europa ou Ásia.

Enquanto tivermos um governo que cria medidas paliativas através de programas que acabam beneficiando apenas meia dúzia de empresas amigas do governo (em vez de atacar a origem do problema, que são os impostos abusivos e a burocracia insana) e dando ouvidos a idéias esquizofrênicas como a do tal laptop de US$ 100, fica difícil. Por falar nisso, por que quando aparece um brasileiro com uma idéia viável ninguém dá bola, mas quando aparece um gringo falando as coisas mais loucas o presidente compra na hora?

Sinceramente espero que o novo presidente a ser eleito este ano mude alguma coisa. Do contrário, daqui a cinco anos estaremos exatamente no mesmo lugar.

Gabriel, o blog LogonTV agradece mais uma vez a sua entrevista e deixa aqui um elogio a você: nunca pensamos que alguém tão conhecido pudesse ser tão acessível e amigo. Deixamos aberto o espaço para as suas considerações finais.

Eu é que agradeço, as perguntas foram muito boas e é sempre um prazer poder falar um pouco mais sobre a minha trajetória e sempre terei tempo disponível para fazer novos amigos. Isso me lembra dois pensamentos.

O primeiro é de Jean Paul Getty, o empresário Norte-Americano que na década de 1960 era considerado o homem mais rico do mundo. Ele achava curioso como todo mundo o criticava por ele ser podre de rico, mas ao mesmo tempo ninguém chegava para ele e perguntava “Como você fez?”, “Qual é a sua história?”, “Você pode me ensinar também?”

O segundo é uma frase de Eric Berne, criador da Análise Transacional: “Quanto mais cedo você fizer novos amigos, mais cedo poderá dizer que tem velhos amigos”.

Gabriel, só podemos lhe agradecer pela ajuda e pela entrevista. No que pudermos ajudar estaremos sempre a sua inteira disposição. Muitíssimo obrigado.

[]`s Wladimir

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