Gabriel Torres fala sobre a Internet no Brasil, Inclusão Digital e Softwares Livres x Proprietários

Publicado no site MXStudio, em 23 de agosto de 2005

Gabriel Torres, 31 anos, formado em eletrônica e jornalismo, é um dos maiores especialistas em hardware, manutenção e configuração de micros do Brasil, segundo a mídia especializada. Tem 18 livros publicados e é colunista do caderno Internet & Tecnologia do jornal O Dia (RJ). Nessa entrevista ele fala um pouco sobre a Internet no Brasil assim como Inclusão Digital e Softwares Livre x Proprietários.

É um prazer conversar com você Gabriel. O Clube do Hardware é um site que praticamente todos de área conhecem e, para começar, conte-nos um pouco sobre ele.

Bem, o Clube do Hardware (http://www.clubedohardware.com.br) está no ar desde 1996 e atualmente recebe a visita mensal de 2,3 milhões de pessoas e imprime mais de 13 milhões de pageviews todo mês. Isso nos coloca de longe não só como a maior publicação sobre informática da América Latina, mas como uma das maiores do mundo. Somos maiores do que todas as revistas de informática brasileiras juntas, e maiores do que muitos sites estrangeiros famosos publicados em inglês. Esse é um feito impressionante, já que o nosso site está escrito em português, uma língua geograficamente limitada.

O que o levou a criar o Clube do Hardware e qual é a motivação diária para mantê-lo?

No início eu só queria um site para divulgar meus livros, mas depois fui postando as colunas e artigos que escrevo para o jornal O Dia e o negócio foi crescendo e deu no que deu.

A minha motivação é saber que o Clube do Hardware ajuda diariamente milhares de pessoas que querem aprender mais sobre informática. Esse é o nosso objetivo: descomplicar a informática.

Você vivenciou a evolução da Internet no Brasil. Quais as principais mudanças que ocorreram até os dias atuais? Além do perfil de usuários, o que você percebeu que mudou nos internautas?

A Internet teve uma fase de euforia onde todo mundo queria ter um site e ficar milionário da noite para o dia. O problema dessa fase é que a quantidade de sites cresceu assustadoramente, mas a qualidade dos sites não acompanhou este crescimento.

Hoje, depois de muitos sites terem saído de cena, o mercado está mais maduro. Temos sites de melhor qualidade e de melhor funcionalidade, sites realmente interessantes. As pessoas finalmente estão entendendo que um site na Internet é como um outro negócio qualquer. Por exemplo, que um site de informações é como se fosse uma revista, e que para sobreviver precisa das propagandas. Outro ponto positivo é que as pessoas estão não só fazendo mais compras pela Internet, mas fazendo negócios de uma maneira geral. Isto é bom, pois fortalece a Internet como mídia.

No início recebíamos muitas críticas pelo nosso site ter anúncios. As pessoas não entendiam que precisávamos de dinheiro não só para pagar os custos do site, mas também para nos sustentarmos, afinal o nosso site é um negócio como outro qualquer e precisamos pagar o aluguel e nos alimentarmos, não é mesmo? Ainda temos alguns usuários que não entendem isso e acham que nós somos obrigados a tirar dúvidas ou consertar o computador deles (de graça, ainda por cima), por exemplo. Mas ainda bem que é a minoria.

Como profissional de informática é inevitável que você já tenha estudado e opinado a respeito de tecnologias proprietárias e de código aberto. O que você pensa a respeito dessas disputas? Quem sai ganhando com esses embates?

Existem dois problemas em relação a tecnologias proprietárias. O primeiro diz respeito a patentes e direitos autorais. Quando videogames e computadores usavam tecnologia aberta, o que aconteceu? A maior onda de pirataria da história da eletrônica. Isso ocorreu do final da década de 70 até a abertura do mercado brasileiro, em 1992. O problema é que as pessoas não se tocavam que era pirataria, que era algo não só ilegal mas que só fazia com que os inventores ficassem desestimulados a criarem mais produtos. Um exemplo era a cópia dos cartuchos do videogame Atari 2600: como os cartuchos usavam uma memória EPROM para armazenar o jogo, muita gente ganhou dinheiro simplesmente copiando o conteúdo da memória e gravando em uma outra memória e vendendo o cartucho “clonado”. O inventor do jogo não via a cor do dinheiro. Pirataria braba. Se eu fosse um programador, não gostaria nada disso. A tecnologia proprietária foi criada basicamente para proteger o inventor das cópias não autorizadas. Isso vale tanto para hardware quanto para software. O segundo problema é a manutenção. Se você tem um hardware ou um software proprietário, só quem o criou pode mexer neles, cobrando quanto quiser.

Eu sou favorável a um meio termo, pois sou a favor da livre concorrência. Pode fazer tecnologia proprietária, mas documenta, pois assim na hora da manutenção qualquer um pode fazê-la. Isso vale tanto para hardware quanto para software.

Muitas vezes fala-se sobre empresas que possuem uma fatia do mercado maior do que a ideal. Monopólio x Livre concorrência, qual a sua opinião?

Acho que as pessoas confundem cartelização com monopólio. O problema não é uma empresa ter 99% do mercado, por exemplo, mas como ela chegou lá. A Souza Cruz tem 75% do mercado de cigarros do Brasil e ninguém a acusa de monopólio nem quer derruba-la, ou sequer se discute se ela está com uma fatia de mercado maior do que a ideal.

O problema são as práticas desleais e predatórias. Um exemplo fora do mercado de informática seria o das empresas que agem em cartel, isto é, combinam entre si os preços que os produtos terão, impedindo a livre concorrência. Ou o “dumping”, prática de cobrar por um produto um valor menor do que o seu custo de produção, só para quebrar as empresas concorrentes. Dessa forma, sou defensor da livre concorrência.

Mas você deve ter feito esta pergunta para saber o que eu acho da Microsoft. É uma questão delicada, por um simples motivo. Ela não tem concorrente para o mercado de usuários finais. Os poucos concorrentes que ela já teve – como a IBM com o seu OS/2 – simplesmente desistiram. O Linux foi criado para o mercado corporativo. Eu uso Linux há mais de seis anos e posso dizer com conhecimento de causa: ele está ainda muito longe de ser um produto pronto para o usuário final. Baixar código-fonte, recompilar, instalar, etc, não é algo fácil nem para usuários avançados. Muito embora tenha melhorado muito e há distribuições bem mais fáceis de serem usadas hoje e com ferramentas que superam isso, tornando o Linux quase igual ao Windows, o Linux ainda é muito mal documentado. Quem já baixou e instalou qualquer software para Linux sabe o que estou dizendo.

A discussão em torno da Microsoft é outra. É sobre como ela se tornou a única usando práticas no mínimo suspeitas e o fato dela não revelar detalhes sobre o seu sistema operacional que somente seus engenheiros têm acesso, colocando as empresas que fazem softwares para Windows em uma posição desprivilegiada em relação aos produtos concorrentes da Microsoft.

Eu não estou defendendo a Microsoft, mas muito do “como” tem mais a ver com a falta de discernimento das pessoas envolvidas na época, que não pensaram em determinados detalhes. Por exemplo, na época do MS-DOS o contrato da Microsoft com os fabricantes de PCs era que eles teriam de pagar “x” dólares para a Microsoft por cada máquina vendida. Só depois de algum tempo que os fabricantes se tocaram que se eles quisessem vender suas máquinas com outro sistema operacional ou mesmo sem sistema operacional, eles teriam que continuar pagando os royalties à Microsoft, pois o contrato foi feito com base em cada máquina vendida e não com base em “máquina vendida com sistema Microsoft”. Aí fica a pergunta: a Microsoft pode ter dado uma de esperta, mandando o famoso “se colar, colou”, mas os fabricantes de PCs assinaram um contrato prejudicial. E aí, quem é o culpado? Em um sistema de livre mercado e livre negociação, cada um faz o acordo que quiser.

Com base em suas análises técnicas, você concorda com as pessoas que fazem questão de ter uma máquina de primeira linha ou você acha que elas deveriam analisar suas necessidades até para uma redução de custos? A corrida para sempre se ter o melhor equipamento, principalmente para os usuários domésticos, é justificada?

Eu acho que a melhor máquina é aquela que cabe no bolso e, ao mesmo tempo, satisfaça às necessidades do usuário. Um usuário que queira rodar os jogos de última geração precisa de um micro completamente diferente de um usuário que quer um PC para somente escrever textos, ver fotos e acessar a Internet. Em minha opinião “melhor” e “mais caro” não são sinônimos.

Uma das áreas da informática que mais atrai usuários é a de jogos. Conseqüentemente muitos pais temem que o computador sirva pura e exclusivamente para diversões eletrônicas e sistemas de relacionamento. Você concorda com eles? Qual a sua posição perante a força de sistemas como o MSN e o Orkut?

Na minha opinião o problema não é o meio, mas a base. Muitos pais ficam preocupados de seus filhos ficarem alienados usando o computador, mas se não fosse o computador ele ficaria alienado com outra coisa. Ou vai dizer que antes de todo mundo ter computador não existiam jovens alienados da mesma forma? Quando digo que a questão é de base, digo que o problema está na educação em casa. Com uma sólida educação em casa com certeza o jovem não irá descambar para a alienação ou para coisas piores, como drogas. Mas também concordo que está havendo um exagero nas relações, onde muita gente está substituindo o bom e velho “se encontrar para bater papo” por relações puramente virtuais. Acho o Orkut e o MSN muito legais, desde que usados como uma ferramenta para fortalecer as relações fora da Internet. Ficar só na coisa do virtual eu não acho saudável.

No Brasil a questão da pirataria é cultural e muitas empresas aumentam seus preços ou simplesmente deixam de lançar ferramentas em nosso idioma por causa disso. Mas a pirataria não se restringe apenas aos softwares, chegando também às peças de computadores. Quais os riscos de se usar hardware de má qualidade?

É o famoso “barato que sai caro”. Você pode economizar no momento da compra, mas pode te dar tanta dor de cabeça depois...

Uma reclamação muito comum é quanto à enorme quantidade de cabos com que nos deparamos para ligar um simples PC com mouse, teclado, caixas acústicas, monitor e impressora. Pessoalmente, você acha que wireless é uma solução palpável ou devemos continuar a luta diária para a inserção de novos equipamentos?

A tecnologia sem fio para teclados e mouses já existe há cerca de dez anos. Quantas pessoas que você conhece usam teclados e mouses sem fio? O problema de tecnologias como essa é que elas encarecem o produto e o mercado brasileiro é muito sensível a preço...

Falando um pouco sobre a temática social, mais uma vez vivenciamos uma tentativa de preencher a lacuna tecnológica que vem se arrastando ao passar dos anos. O que você acha dessas iniciativas de inclusão digital que visam a venda de micros populares e os treinamentos básicos para a população carente? Na sua opinião, qual a melhor forma de contornar essa situação e efetivamente incluí-la digitalmente?

Acho que no longo prazo tudo o que se discute na mídia sobre o assunto está totalmente equivocado, é um problema de foco. Na minha opinião, em vez de programas para fazer computadores baratos para pessoas carentes, acho que o governo deveria focar na educação da população, para que a população pudesse ter acesso a melhores salários e, com isso, pudesse ter acesso a produtos mais caros. É aquele velho ditado: não dê o peixe, ensine a pescar. De acordo com o IBGE, metade da população brasileira só tem até 5 anos de estudo, ou seja, só estudou no máximo até a 4 a série.

Estava lendo uma matéria na revista Veja que falava sobre a tendência de países desenvolvidos de terceirizarem sua mão de obra de serviços de “call center” para países em desenvolvimento, e o que o Brasil está longe de receber uma fatia desse bolo. O motivo é simples: menos de 10% das pessoas com nível superior completo falam inglês – lembrando que somente cerca de 3% da população brasileira termina uma faculdade. Em mundo globalizado perdemos empregos que poderiam melhorar o poder aquisitivo da população para países como a Índia, fazendo com que a gente continue sendo uma república de bananas.

No curto prazo, no entanto, acredito que você tenha tocado no ponto: treinamento. A questão primordial não é fazer com as pessoas tenham PCs em casa, mas que saibam usar um PC, especialmente para a população ter acesso a empregos de melhor qualidade. Afinal, todas as empresas hoje são informatizadas em maior ou menor grau. Até mesmo a lojinha da esquina tem um PDV que não deixa de ser um computador.

Uma solução intermediária, a de “telecentros” em comunidades carentes, eu acho o caminho correto, pois a população pode ter neste local tanto o treinamento quanto o acesso a um PC durante seu horário de lazer, sem que a pessoa tenha de gastar uma grana considerável na compra de um micro.

Falando em tendências, o que você acha que podemos esperar para os próximos anos? Algum lançamento que você espere com ansiedade?

Eu não pratico futurologia e para ser honesto a única coisa que espero é que os PCs básicos fiquem ainda mais baratos.

Qual o panorama que você traça da informática no Brasil hoje? Avanços foram obtidos, mas o que ainda nos falta?

A informática no Brasil só melhorou depois da abertura do mercado em 1992. O que ainda falta é o governo modificar o absurdo que é o sistema de importação brasileiro, onde pagamos 100% sobre o valor do produto importado entre impostos, taxas, armazenagem e outras despesas, sem contar a burocracia insana. A idéia por trás dessa loucura é proteger as indústrias nacionais contra os produtos importados, mais baratos. Mas isso só estimula o contrabando e a corrupção. Em vez de proteger o mercado nacional cobrando impostos de importação absurdos, que tal fazer com que as empresas brasileiras sejam competitivas?

É uma grande satisfação conversar com um profissional como você Gabriel o MXSTUDIO agradece sua presença. Para concluir, qual mensagem você deixa para nossos usuários?

Obrigado por esta oportunidade e pelas perguntas, pois pude expor um pouco da maneira como eu penso. A mensagem que eu deixo é justamente esta: acho que o nosso país precisa de pessoas que pensem e discutam as coisas e não simplesmente aceitem tudo o que é imposto ou dito. O papel da mídia é justamente este: fornecer informações para que as pessoas tirem suas próprias conclusões. Acho que precisamos de mais pessoas assim e não de “papagaios de pirata”, que simplesmente repetem o que os outros dizem.

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