O Gênio Brasileiro dos Computadores

Publicado no site BOOKnet, atual Submarino, em 01 de outubro de 1999

Na infância, enquanto os amigos pediam ao Papai Noel bicicletas e autoramas, o carioca Gabriel Torres era mais pragmático. Encomendava ao bom velhinho uma caixa de ferramentas ou um ferro de solda. Aos 15 anos, vivia enfurnado em um quartinho de sua casa, desmontando computadores, na fase em que os colegas de sua idade corriam atrás de uma bola de futebol. O resultado da dedicação do jovem Gabriel, hoje com 25 anos, pode ser confirmada em números: onze livros publicados em menos de cinco anos. Considerado hoje um dos grandes especialistas brasileiros em hardware, apesar de tão jovem, o autor de Hardware Curso Completo e Manutenção e Configuração de Micros diverte-se trabalhando e falando sobre informática e computação. E prova mais uma vez que santo de casa não faz milagres: Gabriel é filho de Antônio Torres, um dos maiores escritores brasileiros da atualidade.

Você é autor de onze livros de informática aos 25 anos de idade. O que o levou a escrever tantos livros em tão pouco tempo?

Eu sempre gostei muito de escrever. E sempre gostei muito de eletrônica e informática. Acho que juntei tudo o que gosto em uma só profissão: escritor de livros de hardware. O fato é que eu próprio sentia falta de bons livros de eletrônica e informática no Brasil. Existem excelentes profissionais no país, mas raríssimos se aventuram a escrever, pois acham que não vale à pena. O que havia no mercado há 14 anos atrás era basicamente livros em inglês, livros ruins de autores nacionais e livros mal traduzidos de autores estrangeiros (eu chegava ao cúmulo de consertar as traduções com uma caneta para poder entender o texto). Resolvi eu mesmo escrever o meu primeiro livro (Hardware Curso Completo) e, depois, procurei uma editora para publicar. Foi difícil pois todas as editoras recusaram o meu projeto, menos a Axcel. Por sorte, acabei topando com um editor (que hoje é um grande amigo) que acredita na potencialidade do escritor nacional. Tanto que a Axcel só publica autores nacionais, enquanto a maioria prefere traduzir livros estrangeiros. Acho que isso serviu de inspiração para muita gente, pois de trás anos para cá surgiram diversos novos autores nacionais.

Você se inspira em algum inscritor, tem algum modelo ideal nessa área de informática?

Sim. Me inspiro no Bill Gates (mas só no início da carreira dele), no Peter Norton e no Steve Wozniak. O Peter Norton é escritor da área de informática desde a época dos primeiros PCs. Seus livros são clássicos na área, pois desvenda os segredos do micro (Desvendando o PC, Ed. Campus, por exemplo). Ele também criou diversos utilitários que hoje todo mundo usa, principalmente o Norton Utilities. Interessante que ele criou esses utilitários para corrigir falhas dos sistemas operacionais da Microsoft. Ele é uma pessoa que conseguiu fazer o que gosta e manter o seu padrão de qualidade mesmo com a massificação de seus produtos. É uma pessoa que não se desvirtuou. Já em relação ao Bill Gates, gosto muito da maneira com que ele acreditou nos microcomputadores e como ele investiu todo o seu tempo nisso. Ou seja, um cara que acreditava em algo diferente e correu atrás de suas idéias. Um visionário. O problema é que ele se perdeu no meio do caminho. Criou a maior empresa de software do mundo e seu lema agora é dominar o mundo. Sou contra isso. Ter concorrência, isto é, liberdade de escolha, é muito bom, mas ele não gosta de concorrência e, por isso, simplesmente extermina quem tiver em seu caminho. E quanto ao Steve Wozniak pouca gente se lembra dele. Esse cara foi quem inventou o primeiro microcomputador de verdade, o Apple II. Quando se fala da fundação da Apple, muitos pensam logo no Steven Jobs. Se esquecem do Wozniak e do Mike Markkula. O verdadeiro gênio por trás da Apple era o Wozniak, não o Jobs. Porém, assim como o Jobs, Wozniak se perdeu no meio do caminho. Resumindo, eu me espelho muito nos visionários da década de 70.

Quais os livros mais importantes que você já leu?

Tem alguns livros que eu acho fantásticos e que me ajudaram muito em minha profissão. O primeiro livro que li que realmente mexeu comigo foi um que falava sobre a história do Bill Gates e como ele criou a Microsoft (Microsoft, de Daniel Ichbiah e Susan Knepper, Ed. Campus, ISBN 85-7001-727-8). Recentemente devorei a "bíblia" do marketing: Administração de Marketing, do Philip Kotler. Na área de informática a maioria dos livros fica desatualizada muito rapidamente. São poucos os livros que conseguem se tornar clássicos. Fora os do Peter Norton, o Hardware Bible, do Winn L. Rosch e a série System Architecture, da Addison-Welsey são indispensáveis.

Com 15 anos, enquanto seus amigos jogavam bola, o que você fazia?

Eu estudei em escola técnica e passava os recreios no laboratório de eletrônica inventando tudo quanto era geringonça e montando um monte de circuitinhos. Fora da escola, idem, pois eu havia montado uma bancada no quarto de empregada da casa dos meus pais, onde eu tinha minhas ferramentas e meus componentes eletrônicos. Passava a maior parte do tempo ou montando circuitinhos ou lendo livros e revistas de eletrônica. Nessa época eu já trabalhava como autônomo, consertando computadores (na época, o Apple II). Às vezes eu acho engraçado como as pessoas pensam como eu tenho "sorte na vida" ou então que, de uma hora para outra, eu passei a ficar conhecendo tudo o que eu sei. Na verdade, eu comecei muito pequeno a me interessar por eletrônica. Minha primeira revista Be-a-bá da Eletrônica eu comprei em 1983, quando eu tinha 9 anos de idade. Mas já bem antes disso tinha minhas ferramentas. Enquanto os outros garotos pediam de Natal ou Dia das Crianças bicicleta, autorama ou carrinho de controle remoto, eu pedia para a minha mãe caixa de ferramentas, ferro de solda e um crédito de 4.000 cruzeiros para "torrar" na loja de componentes eletrônicos, onde eu comprava transformadores, resistores, capacitores, transistores, diodos... Minha avó que conta que uma das primeiras palavras que aprendi foi "pafuso". E o mais engraçado disso tudo é que meus pais não sabem chongas de eletrônica. Meu pai é supertecnofóbico e demorou anos para aprender a colocar fita de vídeo em vídeocassete.

PC ou Mac?

Tudo depende da aplicação. Em meu caso, como sou especialista em hardware de PCs, estudo muito mais esse tipo de computador e, para mim, está ótimo, pois uso o micro basicamente para produzir textos. O Mac, por outro lado, é um excelente micro para editoração eletrônica. Dificilmente uma boa agência de propaganda usará PCs para a editoração de de arte, por exemplo. A grande diferença entre os dois está na gênese do projeto. Enquanto o PC é uma imensa colcha de retalhos, pois primeiro foi criado o hardware para depois ser criado o software - para aqueles que não sabem, o hardware do PC tem de continuar compatível com o primeiro PC lançado em 1981 -, o hardware do Mac foi construído com base no software (sistema operacional) que a Apple tinha em mente.

Qual é a dica para que um equipamento dure mais?

Comprar um micro que use peças de boa qualidade. Infelizmente nessa área é difícil conciliar qualidade e preço. Muita gente hoje compra um computador pensando no preço e, daí, compra uma verdadeira "bomba" que custou apenas R$ 1 200,00, usando tudo quanto é peça vagabunda. Se você comprar um bom micro e tratá-lo bem (sem ficar dando porradas toda vez em que ele travar), com certeza ele durará anos.

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