Projeto de Redes TCP/IP
Por Fernando Lozano em 29 de outubro de 1998
Introdução
Projeto de Redes TCP/IP
Por Fernando Lozano*
No ar em 29 de outubro de 1998Introdução
No primeiro tutorial sobre TCP/IP tivemos uma introdução à toda a teoria que governa a arquitetura de uma rede TCP/IP. Como vocês puderam ver, não é pouca teoria. Na verdade as provas sobre TCP/IP são consideradas as mais difícies das certificações CNE da Novell ou MCSE da Microsoft.
Mas para montar uma rede local utilizando o TCP/IP, seja para simples compartilhamento de arquivos e impressoras entre estações Windows 95, ou para a construção de uma intranet completa, você não precisa ser um Ph.D. em teoria da ciência da computação. Juntando os conhecimentos teóricos do primeiro tutorial sobre TCP/IP com os as dicas de projeto que forneceremos agora, você poderá criar redes TCP/IP de tamanho pequeno a médio sem problemas.
A Topologia da Sua Rede
O projeto de uma rede TCP/IP está intimamente relacionado com a sua topologia lógica. Muitas vezes nao é fácil entender a topologia lógica de uma rede, devido em parte à confusão criada pelos fornecedores de produtos (software ou hardware) para redes na divulgação dos seus produtos. Por isso vamos apresentar alguns tipos de topologias físicas mais comuns para redes locais e as topologias lógicas correspondentes, para depois apresentar uma "receita de bolo" para orientar o projeto da rede TCP/IP para essas topologias.
Ethernet em cabo coaxial
Dispositivos conectados em um mesmo cabo Ethernet possuem conectividade no nível de Enlace (vide a primeira aula sobre TCP/IP). Fisicamente e logicamente eles estão em uma topologia de barramento, o que no TCP/IP corresponde a uma única rede local. Mesmo que adicionemos repetidores ou pontes (bridges) interligando diversos cabos Ethernet. Logicamente continuamos com um único barramento, o que corresponde a uma subnet do TCP/IP.
Ethernet em par-trançado
Quando utilizamos par-trançado para conectar dispositivos em uma rede ethernet estamos utilizando uma topologia física de estrela. Entretanto, a topologia lógica continua sendo de barramento, pois o hub nada faz além de ecoar o sinal recebido em uma porta para todas as outroas. Assim sendo, o funcionamento lógico do hub é igual ao do cabo coaxial. Se ligarmos vários bubs em cascata, criando uma topologia física de "árvore", continuamos com uma topologia lógica de barramento, equivalente à vários cabos coaxiais interligados por repetidores.
Ethernet com switch
Um switch Ethernet padrão é uma bridge multiporta. Embora fisicamente ele seja capaz de aumentar bastante o desempenho da rede, por permitir que diversos pares dispositivos se comuniquem simultaneamente, logicamente ele opera somente no nível dois do modelo OSI, que corresponde ao nível de Enlace apresentado na primeira aula sobre TCP/IP. A topologia lógica gerada por um switch ainda é um simples barramento Ethernet, mesmo que tenhamos switches em cascata com outros swtiches ou hubs.
Algums switches do mercado incorporam na mesma caixa um roteador. Os fabricantes chamam este projeto de "swtch de nível 3", em referência ao nível 3 do modelo OSI, que corresponde ao nível de rede apresentado na primeira aula sobre TCP/IP. Neste caso, temos que saber qual a configuração específica do switch para determinar qual a topologia lógica implementada por ele. Em linhas gerais esta topologia será um grupo de barramentos Ethernet interconectados por um roteador, que veremos no próximo item:
Roteador dedicado
Caso a sua rede possua um roteador dedicado, cada porta do roteador gera uma rede local lógica, ou seja, cada porta do roteador corresponde a uma subnet do TCP/P. Não importa que tipo de conexão seja feita por estas portas; pode ser Ethernet, WAN, X.25, etc. Cada porta corresponderá a uma rede lógica independente das outras, e o roteador será capaz de realizar, no nível de rede (IP), a interligação destas redes locais. Dois roteadores em cascata geram redes lógicas diferentes, ao contrário dos hubs e switches Ethernet, que geram uma mesma rede lógica (barramento).
Servidor "multihomed"
Um servidor multihomed é um computador que possui várias interfaces de rede. Cada interface de rede gera a sua própria rede local lógica, ou subnet para o TCP/IP. Um roteador dedicado é nada mais do que um servidor multihomed especializado. A maioria dos sistemas operacionais para servidor, e alguns sistemas operacionais de estação (como o Warp 4) são capazes de atuar como roteadores para o TCP/IP.
Colocar várias placas de rede em um mesmo servidor é uma forma barata e popular de se expandir a capacidade ou aumentar o desempenho de uma rede local Ethernet. A maiora dos PCs, mesmo 486, é capaz de sustentar sem problemas o tráfego de 4 placas Ethernet de 10Mb/s, a um preço bastante inferior a um switch ou roteador dedicado.
Projeto Genérico para uma Rede TCP/IP
Redes locais TCP/IP que estejam conectadas na Internet devem utilizar endereços oficiais, atribuídos pelo InternNIC ou por entidades locais autorizadas por este (como a FAPESP para o Brasil). Entretanto a maioria das empresas não necessita nem deve utilizar endereços oficiais, pois isto deixaria a rede inteira vulnerável aos hackers. A partir do momento em que se coloca um firewall protegendo a rede, somente os servidores que serão visíveis publicamente na Internet necessitam de um endereço oficial.
Para as redes internas das empresas, que se conectam à Internet por intermédio de um firewall mas não fornecem serviços visíveis para a Internet pública, o InterNIC reservou algumas faixas de endereço a que chamamos de "redes privativas". São muito raros os caos em que uma empresa não deve utilizar uma dessas faixas para a sua rede local, portanto vamos utilizar como primeira regra de projeto de redes TCP/IP a utilização de uma faixa privativa.
A faixa escolhida é 172.16.0.0. Vamos utilizar como network mask (netmask ou subnetmask) o valor 255.255.255.0, pois assim o terceiro octedo do endereço TCP/IP pode ser utilizado para diferenciar diversas redes locais lógicas (barramentos Ethernetnet) que a rede local da empresa utilize.
Assim a primeria rede local terá como endereço de rede 172.16.1.0, a segunda 172.16.2.0, e assim em diante. O quarto octeto indica o endereço da estação, servidor ou dispositivo nesta rede.
Uma rede pequena terá somente endereços IP fixos, configurados manualmente em cada máquina. Já uma rede maior necessitará de um servidor DHCP para aliviar a sobrecarga administrativa. Entretanto, mesmo em uma rede que utilize DHCP teremos alguns endereços IP fixos, configurados manualmente, porque o DNS não sabe trabalhar em conjunto com DHCP. Isto implica em que os servidores da intranet da empresa necessitam ter um endereço IP fixo, para que eles possam ser identificados via DNS.
Então vamos separar os endereços de host em três faixas: uma para os servidores (IP fixo), uma para as estações configuradas via DHCP e outra para as estações e outros dispositivos que necessitem de um endereço IP pré-fixado. Nossas faixas serão:
Faixa 1 (servidores): 10..99 Faixa 2 (DHCP): 100..199 Faixa 3 (outros dispositivos com IP fixo): 200..250 Outra convenção útil é colocar o default gateway sempre com endereço de host igual a 1.
Não há necessidade de se utilizar os endereços IP sequencialmente. Você pode deixar "buracos" na numeração dos endereços de hosts, o que pode ser conveniente se a sua rede já adotar algum padrão de numeração para os equipamentos.
Caso a sua rede não utilize DHCP, você irá configurar as estações manualmente com endereços de host da faixa 3 e deixar a faixa 2 reservada para uma futura expansão da rede que venha a necessitar do DHCP.
Uma Rede Simples (Um Único Barramento)
Vamos iniciar por uma rede simples, que consiste em um único barramento Ethernet. Esta rede contém um único servidor, que desempenha todas as funções de servidor da rede, e 15 estações, que receberão os endereços IP manualmente. Os parâmetros gerais de nossa rede são:
Então vamos separar os endereços de host em três faixas: uma para os servidores (IP fixo), uma para as estações configuradas via DHCP e outra para as estações e outros dispositivos que necessitem de um endereço IP pré-fixado. Nossas faixas serão:
Endereço de Rede: 172.16.1.0 Network Mask: 255.255.255.0 Default Gateway: vazio (não temos necessidade) Servidor DNS: vazio (não estamos utilizando) Configurar via DHCP: não E os enderços IP dos computadoes, segundo a Figura 1, são:
WWW: 172.16.1.10 M01: 172.16.1.201 M02: 172.16.1.202
e assim por diante, até o M15: 172.16.1.215Como não temos um servidor DNS nesta rede, cada estação deve ter um arquivo de hosts para que o servidor Web possa ser localizado. O nome e diretório do arquivo de hosts varia de plataforma para plataforma, mas o seu conteúdo será:
127.0.0.1 localhost 172.16.1.10 wwwObserve o nome "localhost", que é padrão para o loopback do TCP/IP (vide primeiro tutorial sobre TCP/IP, tópico "Como Testar uma Rede TCP/IP").
Uma Rede Simples (Com dois servidores)
Este exemplo difere do primeiro apenas no tamanho da rede. Agora temos 50 estações e dois servidores, um para arquivos e impressão e outro para a intranet, que abrigará os servidores Web, DNS e DHCP. Os parâmetros gerais para esta rede são:
Endereço de Rede: 172.16.1.0 Network Mask: 255.255.255.0 Default Gateway: vazio (não temos necessidade) Servidor DNS: 172.16.1.10 (é o servidor da Intranet) Configurar via DHCP: sim (somente para as estações) E os enderços IP dos computadoes, segundo a Figura 2, são:
WWW: 172.16.1.10 SERV1: 172.16.1.20 M01..M50: 172.16.1.100..172.16.1.150 (configurados via DHCP) Notem que, no TCP/IP, podemos ter vários servidores com o mesmo endereço IP, pois cada servidor corresponde a um programa diferente, que utiliza o seu próprio número de porta para receber as coenxões dos clientes. No caso, temos um servidor Web e um servidor DNS no endereço 172.16.1.10.
Como desta vez temos um servidor DNS, não precisamos criar um arquivo de hosts em cada estação.
OBS 1: Nesta série de aulas, não iremos apresentar como é a configuração dos servidores DNS e DHCP. São topicos mais demorados, que exigiriam aulas específicas. Entretanto, caso a sua rede possua esses servidores ou caso você esteja trabalhando junto com outro profissional que saiba configurar esses servidores, estamos incluindo exemplos para mostrar como seria a configuração das estações com os servidores DNS e DHCP presentes. Note que ambos os servidores podem ser utilizados independentemente um do outro, ou seja, eu posso ter um servidor DHCP nas não ter um servidor DNS, e vice-versa.
OBS 2: Também não iremos apresentar as configurações do servidor Web, mas consideramos que existe um presente na intranet. A maioria dos servidores web, quando instalados em uma rede TCP/IP corretamente configurada, não necessita de configurações extras: os seus defaults já fornecem uma intranet perfeitamente funcional, basta verificar no manual do servidor web utilizado em qual diretório devem ser instaladas as páginas HTML.
Uma Rede Com Dois Segmentos e Dois Servidores
Agora temos dois segmentos (barramentos) Ethernet, cada um com 20 estações, interligados por um servidor multihomed. Este servidor deve estar com o roteamento IP habilitado (IP forwarding = on) para que os dois barramentos possam se comunicar.
O servidor web está no primeiro barramento, e não temos servidores DNS ou DHCP presentes.
Os parâmetros gerais para esta rede são:
Endereço da Rede 1: 172.16.1.0 Endereço da Rede 2: 172.16.2.0 Network Mask: 255.255.255.0 Default Gateway da Rede 1: 172.16.1.1 Default Gateway da Rede 1: 172.16.2.1 Servidor DNS: não temos Configurar via DHCP: não E os endereços IP dos computadoes, segundo a Figura 3, são:
WWW: 172.16.1.10 GATEWAY: 172.16.1.1 e 172.16.2.1 M101: 172.16.1.201 M102: 172.16.1.202 e assim por diante, até o M120: 172.16.1.220 M201: 172.16.2.201 M202: 172.16.2.202 e assim por diante, até o M220: 172.16.2.220.Observem que um servidor multihomed possui vários endereços IP, um para cada interface de rede presente.
Considerando que o servidor multihomed não roda nenhum serviço para a intranet, ele não precisa ser listado no arquivo de hosts, que teria o seguinte conteúdo:
127.0.0.1 localhost 172.16.1.10 wwwUma Rede Com Dois Segmentos e Um Servidor
Você poderia, por economia, colocar todos os serviços de rede em uma única máquina, mas ainda assim ter dois segmentos. Digamos que temos poucas estações, porém muito distantes, por isso fomos obrigados a instalar dois segmentos Ethernet.
O único servidor fornecerá serviços de arquivos, web e roteamento para a rede inteira. Não temos servidores DNS ou DHCP presentes.
Os parâmetros gerais para esta rede são:
Endereço da Rede 1: 172.16.1.0 Endereço da Rede 2: 172.16.2.0 Network Mask: 255.255.255.0 Default Gateway da Rede 1: 172.16.1.1 Default Gateway da Rede 1: 172.16.2.1 Servidor DNS: não temos Configurar via DHCP: não E os enderços IP dos computadoes, segundo a Figura 4, são:
WWW: 172.16.1.1 GATEWAY: 172.16.1.1 e 172.16.2.1 M101: 172.16.1.201 M102: 172.16.1.202 e assim por diante, até o M110: 172.16.1.210 M201: 172.16.2.201 M202: 172.16.2.202 e assim por diante, até o M205: 172.16.2.205Quando eu tenho um servidor multihomed que deve ser listado no arquivo de hosts, podemos usar qualquer um dos endereços, mas somente um deles poderá estar no arquivo de hosts:
127.0.0.1 localhost 172.16.1.1 wwwDigamos que você queira prever o crescimento futuro da rede e a consequente instalação de uma nova máquina para o servidor web. O arquivo de hosts pode listar vários nomes, ou alias, para um mesmo endereço IP, por exemplo:
127.0.0.1 localhost 172.16.1.1 servidor1, wwwE quando a nova máquina para o servidor web for instalada, você poderia alterar os arquivos de host (em todas as estações) para:
127.0.0.1 localhost 172.16.1.1 servidor1 172.16.1.10 wwwÉ claro, a entrada para o "servidor1" só será necessário caso haja algum outro serviço intranet sendo oferecido pela máquina, por exemplo um servidor FTP. Os nomes de hosts fornecidos pelo DNS ou definidos no arquivo de hosts não tem significado para as redes Microsoft e Novell, pelo menos no que diz respeito ao compartilhamento de arquivos e impressoras.
Caso eu decida incluir um servidor DHCP nesta rede, eu tenho duas opções: ou eu instalo o servidor DHCP no servidor multihomed, ou eu instalo dois servidores DHCP, um para cada subnet. Como o DHCP opera na fronteira entre o nível de rede e o nivel de enlace, as estações não podem utilizar o roteador para se conectar ao servidor DHCP.
Observações Finais
Este tutorial poderia ser extendida indefinidamente, demonstrando diversas possibilidades de topologias de rede, servidores presentes e etc. Entretanto acreditamos que as configurações apresentadas como exemplo serão suficientes para a maioria dos casos. Redes maiores nada mais são do que combinações dos casos simples apresentados acima.
Caso a sua rede inclua estações ou servidores rodando Windows (3.x, 95, 98 ou NT) você deve tomar cuidado com alguns detalhes. Primeiro, o nome de domínio do DNS não tem nenhuma relação com o nome de domínio do NT, assim como os nomes de host definidos pelo DNS ou pelo arquivo de hosts não tem relação com os nomes dos computadores para a rede Microsoft. Você pode até configura-los para que sejam iguais, mas deve se lembrar que eles estão relacionados com componentes de software diferentes.
Segundo, a correta operação de uma rede Microsoft com TCP/IP em uma rede composta por varias subnets exige que seja instalado e configurado um servidor WINS ou NBNS. Muitas pessoas pensam que o WINS e o DNS são equivalentes, ou que um pode substituir o outro, o que não é verdade. O WINS fornece o endereço IP correspondente a um endereço da rede Microsoft (que é um nome NetBIOS), que é uma única palavra de até 14 letras, enquanto que o DNS fornece o endereço IP correspondente a um endereço da Internet ou da intranet, que é um conjunto de palavras separadas por pontos e de compimento virtualmente ilimitado. O DNS não tem conhecimento dos nomes de "workgroups" da rede Microsoft, e a rede Microsoft não tem conhecimento de que o domínio "microsoft" está dentro do domínio ".com".
A apresentação de todos os detalhes para a configuração ótima de uma rede Microsoft com TCP/IP seria assunto para uma série de tutoriais à parte, mas o material fornecido nesta série de tutoriais será suficiente para as situações mais corriqueiras de configuração de uma intranet.
* Fernando Lozano é analista de sistemas especialista em redes locais e consultor do Clube do Hardware. Seu site pessoal, com várias informações sobre Linux, pode ser acessado em http://www.lozano.eti.br.Originalmente em http://www.clubedohardware.com.br/artigos/607
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