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Minha história profissional - Parte 2

       
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Acompanhe o relato detalhado da carreira profissional de Gabriel Torres, dono do site Clube do Hardware. Esta parte cobre a sua adolescência (1985 a 1988).

Minha história profissional - Parte 2
Gabriel Torres Editor executivo do Clube do Hardware

Em 1985 fui “obrigado” a fazer algo que eu não queria: estudar inglês. É aquela história, pré-adolescente e adolescente acha que tudo o que vem dos pais é o maior “mico”. No meu caso, minha mãe era professora do IBEU, então eu poderia estudar de graça, mas o mico de ser o filho de uma das professoras (e, com isso, ser o “queridinho” dos professores e professoras) era aterrorizante. Fui vencido pelo cansaço (ou por alguma ameaça do tipo “se você não estudar no IBEU vou te obrigar a tomar suco de espinafre no lanche”, típico da minha mãe – sinceramente não me lembro como ela conseguiu me convencer).

Hoje, 22 anos depois, sou grato pela minha mãe ter me obrigado a estudar inglês (e aqui pagando publicamente o que ela profetizou, “quando você ficar mais velho você vai me agradecer”). Formei-me no curso regular do IBEU em 1992, após seis anos de estudo (a conta não está errada, eu parei o curso temporariamente no último semestre do 2º grau, com toda aquela pressão de vestibular).

Graças ao IBEU eu tenho inglês fluente. Se há uma coisa que me ajuda mais do que qualquer outro curso que eu tenha feito é saber ler e falar inglês. Esta é uma recomendação que eu faço a todos, independentemente de se estarem no ramo da informática ou não. O inglês é a língua dos negócios e, no caso do ramo tecnológico, é a língua do meio. Eu vejo diariamente várias pessoas que não querem estudar inglês por puro comodismo, escuto com freqüência afirmações como “mas hoje há tudo em português”, “vou esperar sair em português”, ou, pior, “se quiserem que eu aprenda que lancem em português” (juro que já escutei esta pérola).

Não saber inglês é a maior limitação profissional que alguém pode ter, principalmente na área tecnológica. O que há em português foi escrito por alguém (como eu, Laércio Vasconcelos, etc) que aprendeu o assunto em inglês e o explica com suas palavras e didática em português. Mas na hora de se aprofundar, de querer saber mais do que eu ou do outro especialista brasileiro está explicando, só mesmo em inglês, através de livros, da Internet ou de cursos. Como disse, isso vale para qualquer área.

Fim do papo-cabeça, vamos voltar ao assunto principal. Em 1986 eu fiz um uma “escolinha de computação”, quando tinha 12 anos, no Colégio Anglo-Americano, onde estudava. O laboratório da escola era composto de micros Commodore 64 (se não me falha a memória havia uma brecha na lei da reserva de mercado que permitia a importação de computadores por escolas). A vantagem desse cursinho é que eu pude ter contato pela primeira vez com um drive de disquetes.

Para continuar na ordem cronológica dos acontecimentos, no verão de 1987 fui com a minha família a Salvador (a minha família por parte de pai é baiana) e lá o meu tio Toninho – um hobbista em eletrônica até hoje – me fez uma mega doação de todas as suas revistas e componentes tais como capacitores, resistores e transistores. Trouxe para casa uma caixa gigantesca (sem exagero, a caixa media quase 1 metro de comprimento) de material que me foi útil por anos a fio. Como vocês já sabem, eu vivia montando tudo quanto é circuitinho eletrônico em minha bancada (sim, enquanto outros garotos tinham escrivaninha eu tinha bancada).

Ainda em 1987 eu ganhei de dia das crianças um Apple II Plus da Milmar que era da minha madrinha. Sem drive de disquete (mas pelo menos tinha monitor de fósforo verde). O que era possível fazer com um Apple II Plus sem disquete? Bem, quase nada, mas eu tinha algumas opções: (1) programá-lo e perder tudo no final do dia ou então deixá-lo ligado direto para não perder o programa; (2) gravar e carregar programas em fita cassete (sinceramente, nunca consegui isso no meu Apple II); (3) desmontar para ver como funciona. O que não era um problema, já que a tampa do Apple II levantava para você ter acesso à placa-mãe, tendo acesso a todos os circuitos integrados.

Aqui vale um parêntese, algo que não me sai da cabeça fazendo um retrospecto da informática no Brasil nos anos 80 e início dos anos 90. Eu ganhei meu Apple II em 1987, dez anos depois de ele ter sido lançado no mercado americano. Você se imagina hoje (2007) comprando um Pentium-100 novo, zerado, por R$ 2.000 e ainda achando que fez um negócio da China? Pois é, mas era mais ou menos isso o que aconteceu no Brasil durante a reserva de mercado: computadores obsoletos por preços exorbitantes e você ainda achava que tinha feito um bom negócio.

Mas voltando ao assunto, a minha coleção de Micro Sistemas foi de grande valia para aprender sobre o Apple II, bem como o livro “Apple II Guia do Usuário” que a minha madrinha me deu junto com o computador (este livro ensinava tudo sobre o Apple II).

A partir daí virei Applemaníaco de carteirinha. Na seção de cartas da Micro Sistemas eles sempre publicavam nomes e endereços de pessoas que tinham determinado computadores para troca de correspondência, e eu comecei a me corresponder com outras pessoas que também tinham Apple II. Não muito diferente do que fazemos hoje em fóruns e e-mails, com a diferença de ter que escrever uma carta, envelopá-la, levá-la aos correios e esperar uma resposta...

Rapidamente descobri que existiam não só clubinhos de usuários como também publicações independentes especializadas, tipo “jornalzinho”, com artigos, dicas, informações e mais nomes e endereços para troca de correspondências... Dois dos jornaizinhos da época eram o Apple News e o The Apple.

Ao mesmo tempo em que eu ia aprendendo mais sobre o Apple II eu ia desmontando o bicho. Por pura falta do que fazer por não ter um drive de disquetes eu comecei a brincar de remover circuito integrado por circuito integrado para ver o que acontecia com o funcionamento do micro e ia anotando em um bloco o resultado. Até que eu um dia queimei o meu computador (descobri da pior maneira porque não dá para tirar CI do micro com ele ligado). É óbvio que o meu método estava furado, mas não era uma maravilha não saber disso?

Depois de dar um prejuízo para o meu pai finalmente ganhei um drive de disquetes e sua respectiva placa controladora.

A partir de 1988 comecei a escrever artigos para o The Apple, e o editor, Hênio T. Barros, convidou-me para ser colaborador fixo do jornalzinho com o título de “repórter (ir)responsável”. Este foi, para todos os efeitos, o início da minha carreira jornalística.

Também em 1988 ganhei de Natal um TK3000, um clone do Apple //e. O TK3000 era muito melhor que o Apple II Plus, especialmente porque permitia letras maiúsculas e minúsculas, além de acentuação tal como ela é hoje (na época usuários de PC sofriam horrores para acentuar no WordStar. Tinha que dar uma seqüência interminável de teclas de controle).

Como o Apple //e tinha sido lançado em 1983 nos EUA pelo menos eu consegui reduzir a minha defasagem tecnológica em comparação aos americanos para “apenas” 5 anos. Já era como estar comprando hoje (2007) um computador novinho em folha baseado no Athlon XP 2000+ pagando o preço de um Core 2 Duo (e o pior, sabendo que no exterior o pessoal estava comprando Core 2 Duo pelo mesmo preço do Athlon XP). Menos mal.

Já no Natal de 1989 foi a vez de eu ganhar uma impressora matricial e uma placa de impressora para o meu TK3000 (compradas na Mesbla – acho que meus pais eram meio fãs da Mesbla, tanto meu Odyssey quanto meu TK3000 também foram comprados lá; o TK85 foi comprado na TeleRio), que passou a me ajudar pacas nos trabalhos de escola.

A impressora era uma Olívia, da Elebra, uma porcaria nacional que só vingava em nosso mercado graças à reserva de mercado. A Elebra tinha alguns modelos melhorzinhos, mas essa Olívia era uma tristeza, o sistema de tração dela era uma porcaria e apesar de em teoria ela aceitar papel comum era quase impossível depois de alguns meses de uso imprimir uma página de papel comum sem que a impressora começasse a puxar um dos lados do papel mais do que o outro, fazendo com que a impressão ficasse torta. Dizia o pessoal na época que as impressoras da Elebra (além da Olívia a Elebra tinha a Amélia, a Emília e a Mônica) tinham nome de mulher porque eram barulhentas, monopolizavam a atenção no escritório e viviam pedindo atenção. Ops, deixa eu parar por aqui antes que alguma mulher me taque uma fonte de alimentação na cabeça.

Eu continuei com o meu TK3000 até o final da reserva de mercado, em 1993, quando então migrei definitivamente para o PC. Até lá continuei incrementando o bicho, em particular com a instalação de uma placa de expansão de 1 MB de memória (afinal ele vinha com 64 KB), o que era uma maravilha, pois dava para criar um RAM drive e copiar programas que usavam mais de um disquete todo para a memória RAM, fazendo com que o programa ficasse um foguete, além de não precisar ficar trocando disquete.

Em 1989 eu entrei para o segundo grau técnico em eletrônica no Instituto de Tecnologia ORT, sendo este o primeiro passo para o início da minha carreira profissional. Vou abordar esta época na próxima parte.

A propósito. Eu prometi fotos e nesta parte não há nenhuma. Eu procurei de cabo a rabo e não encontrei nenhuma foto da época retratada nesta parte. Como comentei, eu estava naquela fase de achar tudo “um mico” e não gostava de tirar fotos. Mas prometo que recompenso vocês na próxima parte com várias fotos.

Editado por Gabriel Torres

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  • Amei 1


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Comentários de usuários


"ou por alguma ameaça do tipo “se você não estudar no IBEU vou te obrigar a tomar suco de espinafre no lanche"

Hahahahhahahahaahahaha.

Adorei kkkk, mães sendo mães.....

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